10 coisas que aprendi morando em outro país

Quase três anos e meio depois de ter vindo parar na Espanha, eu percebo que mudei – e muito! É impossível viver essa experiência de morar fora, com suas vantagens e desvantagens, e não passar por algumas transformações. Às vezes por simples convivência, às vezes “na marra”, a gente acaba aprendendo um monte de coisa e fica com a sensação de que sempre há mais por vir.

Decidi fazer essa listinha da minha experiência pessoal morando fora. Claro que é bem diferente para cada um, porque as histórtias e as condições mudam muito: tem gente que vem com a família, tem gente que vai morar fora por necessidade, tem gente que vem só passar um ano sabático. Tem de tudo! Mas acho que todo mundo que já passou por isso vai se identificar com pelo menos um desses pontos:

1- Ser independente.

Com independência, eu não quero dizer: aprender a fazer a própria comida, lavar a roupa e  arrumar as próprias coisas, embora eu tenha tido que aprender tudo isso.  Ser independente aqui significa ter que se virar financeiramente e passar aperto em algumas situações, significa ter medo e não poder ligar pra sua mãe do outro lado do mundo para não preocupá-la, significa se sentir sozinho e não poder ligar para os amigos para tomar uma cerveja, significa não ter companhia para sair no final de semana e encarar uma maratona de museu+restaurante+cinema sozinho, principalmente no começo. É difícil e tem horas que essa solidão parece maior, quando você entra no Facebook e vê que sua família continua fazendo churrasco no domingo e seus amigos mantêm a agenda cheia. Essa fase é difícil, mas passa! E quando você sai dela, você se sente mais fortalecido que nunca.

2-Desacelerar.

Em São Paulo, eu estava sempre com pressa e atrasada. Andava no shopping correndo, comprava correndo, comia correndo e rolava a maior impaciência quando o atendimento em algum lugar era demorado. Quando cheguei aqui, eu quase surtei! O garçom demorava cinco minutos pra vir atender, outros cinco pra trazer o café, mais cinco para trazer a conta e assim ia… eu tinha vontade de gritar e implorar por eficiência.

Mas, pouco a pouco, eu aprendi a desacelerar. Não só porque o atendimento é lento, mas porque o ritmo de vida é outro. Além disso, mais de um em cada quatro espanhóis (27%) tem mais de 65 anos, o que significa que você tem grandes chances de ficar atrás de um idoso na rua e tem que ter paciência com seus passos lentos. No começo, isso me dava uma impaciência danada, mas agora eu vejo pelo outro lado: é incrível como os idosos aqui são mais independentes e sempre estão na rua, passeando, tomando café, fazendo compras.

Desacelerar ainda é um aprendizado para mim.

abuelita

3- Dinheiro importa, mas não é tudo.

Claro que é fácil falar que dinheiro não é tudo quando se tem saúde e educação (até o Ensino Médio) gratuitas e de qualidade. Nesse ponto, o Estado de Bem-Estar social faz o seu papel, embora a qualidade dos serviços prestados venha caindo desde o início da crise. Mas, no geral, não é necessário tanto dinheiro para viver na Espanha. Com certeza, muito menos que em São Paulo! Aqui, em qualquer bar você tem uma tapa, há muitas atividades culturais gratuitas e há parques e diversas iniciativas que acontecem nas ruas ou em espaços abertos e acessíveis.

Mas acho que a lição está em outra coisa: aqui as pessoas não ostentam tanto. Ok, a Espanha está em crise e seria meio sem sentido falar em ostentar nesse momento. Mas o fato é que mesmo quem tem dinheiro não ostenta como se faz no Brasil. Sabe buffett infantil cheio de frescuras que custa o salário do mês? Não rola por aqui! Nem trocar de carro todos os anos (aliás, o povo aqui é bem desapegado com o carro!), nem comprar roupa de marca, nem ir pra restaurante caro só pra postar a foto no Instagram. Claro que existem espanhóis que fazem isso, mas está bem longe de ser a maioria, inclusive aqueles que podem ser permitir esses luxos; e se você faz tudo isso, eu não estou dizendo que seja errado, mas sim que é um estilo de vida diferente do que é “praticado” aqui e que, sim, é possível ser feliz – e muito – fazendo coisas  simples e ganhando muito menos.

A sensação que tenho é de que no Brasil trabalhamos tanto, nos estressamos tanto que temos que dar um bom uso ao dinheiro e, infelizmente, esse bom uso está ligado à ostentação. Aqui, a ideia de felicidade está muito mais relacionada a coisas simples, como um dia de sol no parque, tapas com cerveja em La Latina, museus e muita, muita atividade ao ar livre.

4- Ser tolerante.

Imagine morar em uma Comunidade (Estado) em que 13% das pessoas são imigrantes  e que esses imigrantes são de países tão diversos como Romênia, Marrocos, Equador, China, Colômbia, Peru… é exatamente assim aqui em Madrid. Você provavelmente estuda com mais latino-americanos e pessoas do Leste Europeu, compra carne em um açougue árabe, encontra uma lojinha administrada por chineses em cada esquina e trabalha com gente da Espanha inteira e de outros países.

Conviver com outras culturas exige, mais do que nada, respeito mútuo. Se existe racismo na Espanha? Muito! Você pode optar por ser mais uma pessoa cheia de preconceitos ou se abrir para conhecer pessoas com origens completamente diferentes à sua. Criticar é sempre muito fácil, mas tentar entender exige tempo, dedicação e mente aberta. Por que seguir esse caminho “mais trabalhoso”? Simples: porque também sou imigrante aqui e detesto o fato de que me vejam com preconceito e com o estereótipo de mulher latino-americana que vem buscar marido e roubar trabalho dos espanhóis. Eu não sou isso e não acho justo que pensem isso de mim sem me conhecer, então, por que faria o mesmo com os outros estrangeiros?

5- Não existe “o espanhol”.

Quem não veio pra cá cheio de estereótipos dos espanhóis? Pois é, mas esses são só estereótipos. Já ouvi muita gente falar que os espanhóis são grossos, frios, fechados, mal-educados e eu mesma já encontrei com muitos desses, mas não são todos. Muitos estrangeiros que vêm pra cá só saem com pessoas da mesma nacionalidade e eu acho que isso é o pior que se pode fazer. Tente fazer amigos locais, que eu garanto que tem muito espanhol gente boa, aberto, carinhoso e simpático por aqui.

6- Ter orgulho das minhas origens.

Normalmente, quando falo que sou brasileira, as pessoas me tratam muito bem, sempre têm curiosidade, além de me perguntarem as coisas básicas do Brasil (estereótipo). Mas o bacana é que a recepção aos brasileiros costuma ser positiva. Morar na Espanha, com um espanhol e conviver com amigos e família espanhóis me fez ver o Brasil com outros olhos. Sei que o meu país não é perfeito, mas gosto de contar sua história, nossa cultura, tradições, fazê-los provar nossa comida, comparar nossas expressões. Nunca pensei que ia ficar tão feliz ao ver um namorado falando que “também é um pouquinho brasileiro”.

7- Saudade dói, mas não mata.

Eu, que achei que nunca me adaptaria morando fora depois da minha experiência frustrada nos EUA, me adaptei por aqui. Sinto saudades, mas já consigo me desconectar do Brasil e quase nunca fico triste a ponto de isso afetar a minha vida aqui. Pode demorar meses, mas esse momento chega e é muito bom se sentir em casa no país adotado.

8- Perder os “benefícios” e recomeçar de novo.

No Brasil, eu tinha muitos dos benefícios da classe média: sempre estudei em escolas particulares, andei de carro, viajei pra praia, fui pra Porto Seguro na formatura do colegial, estudei em universidade privada, fiz cursinho de inglês e espanhol, consegui trabalhos razoáveis. Quando decidi ficar aqui, eu era só mais uma: o espanhol não era meu primeiro idioma, minha pós-graduação na PUC não tinha o mesmo valor, nem as minhas experiências profissionais. Claro que eu vim com toda a “bagagem” adquirida no Brasil, mas eu tive que começar tudo de novo em um país em crise. Foi fácil? Não foi, não é e tem momentos em que desanimo, mas no fundo sinto um certo orgulho por saber que é possível começar de novo. Estamos nesse caminho e vamos ver no que vai dar!

9- Misturar línguas.

Eu achava que isso era frescura de quem morava fora um tempo e queria se aparecer, mas não é! Claro que sei distinguir as duas línguas e me comunicar nas duas sem problemas, mas cada vez vejo meu vocabulário mais “contaminado” por expressões e palavras que uso diariamente em espanhol. E o mais engraçado é que em casa já falamos portunhol, porque o Juan sempre diz que quer aprender português e solta expressões do tipo “nossa, gente!!”.

10- A Espanha não é o paraíso.

A Espanha é um país lindo, incrível, complexo, cheio de história, de problemas, de praias, montanhas, com a melhor gastronomia do mundo, com as festas mais animadas e as pessoas que falam mais alto… a Espanha é minha casa há algum tempo e eu amo esse país. Mas eu consigo ver claramente seus problemas, seus desafios, suas limitações, sua falta de perspectiva no futuro próximo. Aqui, me senti acolhida, mas sei que não são todos que compartilham dessa experiência. Por isso, morar fora pra mim pode ser algo completamente diferente do que é ou foi para você.

Agora eu quero saber, o que mais vocês aprenderam por aí?

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15 Comentários

  1. Me identifiquei com cada ponto, Larissa! Realmente não é fácil, a gente tem que batalhar muito, mas vale a pena cada segundo 🙂

    1. Tati, encontrar pessoas que estão cruzando o mesmo (longo) caminho que a gente só nos fortalece 🙂

  2. Identifico-me praticamente a 100% com o post 🙂 vou partilhar!
    E olha que o facto de ser portuguesa e viver “aqui ao lado” não faz diferença nenhuma. (em termos de ter + ou – saudades, ou “sofrer” de + ou – racismo)

    1. Susana, que bom! Mas confesso que tenho uma invejinha por você morar “aqui do lado”. Aliás, vai ter que levar a galera toda para Portugal! 🙂

      1. Ahahha por um lado é bom e por outro é mau! As saudades nunca desaparecem porque sempre estamos tão perto e ao mesmo tempo tão longe!
        É só marcar e fazemos uma roadtrip todos juntos para conhecer (pelo menos) o norte de Portugal! 😀

  3. Guapa,
    a parte legal de misturar os idiomas é ensinar portuñol aos companheiros.
    Paco aprendeu a falar bundinha ao invés de bom dia! hehehehe

    no mais, é isso ai, tamo junto! 🙂

    beijo

  4. […] foi uma das muitas coisas que aprendi por aqui e sobre as quais escrevi nesse post.  Antes de julgar qualquer dos dois lados, ou países, pare e pense! Eu não tenho dúvida de que […]

  5. […] é que eu nunca fui super fã de vinhos e não entendo absolutamente nada dessa bebida! Mas como moro na Espanha, decidi que ia reverter essa situação e, para começar, nada melhor que participar de uma […]

  6. […] e seco. No começo isso também me intimidava muito, mas depois vi que não era grosseria, é so o “jeitinho” deles, rs! Por outro lado, eu acho muito legal quando você tá saindo do bar e o garçom, lá no fundo, […]

  7. Mariana · · Responder

    Oi Larissa!
    acabei de descobrir seu blog. Estou no meu segundo dia em Madri e me sinto muito perdida ainda. HahHahahahahahaha… Já era de se esperar.
    Ficarei aqui por 6 meses estudando espanhol e adorei suas dicas. Tenhos certeza que vou me lembrar delas no final da minha experiência.
    Vou continuar acompanhando seu blog. 😀
    Beijos

    1. Mariana, bem-vinda! Chegou na hora certa, a tempo de comemorar San Isidro. Não se preocupe que assim que as aulas começarem você entra no ritmo. Se quiser passar pelas festas hoje de tarde, me manda um email com seu telefone e nos encontramos por lá, pq sei que no começo é difícil mesmo. Beijo

  8. Jessica Fatima · · Responder

    Oi Larissa, gostei muito do seu texto, estou nos EUA tem 7 meses e ainda estou na fase solidão, gostaria de saber o que você fez para encarar essa fase? e o por que morar aqui pra você foi uma tentativa frustada?

    1. Oi, Jessica! Tudo bem? Foi frustrada porque não aguentei ficar e fiquei e hoje me arrependo de não ter tentado ficar mais tempo. Acho que houve vários fatores que me fizeram querer voltar: eu descobri não ter paciência com crianças, fui perto do final do ano e aí não dava para começar nenhum curso, tinha começado um relacionamento e estava super apaixonada. Minha dica é saia muito: vá a museus, cinemas, qq coisa que te atraia. Aqui em Madrid, era fácil encontrar bastante coisa gratuita. Mesmo se vc não fizer amigos, vc vai ter a sensação de que está aproveitando o tempo aí. A maneira mais fácil para fazer amigos é em cursos – pelo menos para mim! Espero que dê tudo certo!

  9. Muito útil, principalmente para pessoas que acham que viver em outro país é “um glamour”. Parabéns para determinaçao e pelo blog.

    1. Oi, Ilma! Exatamente, para a maioria das pessoas que se arriscam em outro país, não há nada de glamour. Obrigada! Um abraço!

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